o mais puro dos homens é sua própria impureza

Um urinol de porcelana foi comprado em uma loja de encanamento em Nova Iorque. O que ninguém imaginava é que esta peça tão cotidiana pudesse ser vista em uma galeria de arte. E foi isso que Marcel Duchamp fez pela primeira vez na história da arte: tirou um objeto de seu cenário habitual para colocá-lo num contexto novo e incomum.

Além da inscrição “R. Mutt 1917”, o mictório foi invertido da sua posição original. Esse movimento não ocorreu para criar uma experiência estética, mas para fazer uma declaração conceitual. O autor valorizava a idéia de ready-made, que tem como objetivo mostrar que a arte não é um produto em si, mas a “cosa mentalle”, a arte está no intelecto, na subjetividade, no atributo do valor artístico.

A assinatura da obra ganhou o pseudônimo R. Mutt, que se imagina que não ter apenas um único significado, se é que realmente possui algum. Supõe-se que Marcel Duchamp tenha deixado para o público refletir sobre as possibilidades ambíguas e multi-facetadas que o nome viesse a sugerir.

A assinatura do trabalho podia ser, possivelmente, um trocadilho com o nome da fábrica na qual adquirira o urinol: “Mott Works”. Duchamp gostava muito do jogo de palavras, tanto que intitulou diversos quadros com nomes ambíguos ou com brincadeiras fonéticas. Um exemplo deste lado irreverente do pintor se reafirma no nome de outra obra sua, a Mona Lisa de barba e bigode: “L.H.O.O.Q.” que a sonoridade levaria a frase, em francês, “Elle a chaud au cul”.

“Eu gostava muito deste tipo de jogo fonético, porque descobri que se podia fazer muito. Lendo-se simplesmente as letras em francês, e não importa mesmo em que língua, chega-se a coisas incríveis” – disse Marcel Duchamp em entrevista a Pierre Cabanne no livro “O Engenheiro do Tempo Perdido”.

Duchamp fazia parte da diretoria da exposição na galeria de arte na época, mas não gostava da sua equipe e então, com o intuito de provocar e chocar tanto o público quanto os organizadores, inscreveu a obra sob a taxa de US$ 6. O objeto causou tumulto e incompreensão junto à comissão julgadora. No entanto, curiosamente a obra foi defendida por Beatrice Wood, artista Dadaísta, e Henri Pierre Roché, jornalista e colecionador de arte:

“A Fonte do Sr. R. Mutt não é imoral, é absurda, tem tanto de imoral como uma banheira. É um objeto que se vê todos os dias. Se o Sr. Mutt fez a fonte com suas próprias mãos, não tem importância. Ele a escolheu. Pegou um artigo corrente da vida, o colocou de forma que fez desaparecer seu significado utilitário sob novo título e ponto de vista – deu-lhe um novo sentido”.

A partir dos ready-mades de Duchamp, as pessoas começaram a perceber a obra de arte sob outros aspectos. Esse tipo de criação artística propõe que o espectador se desfaça das expectativas habituais diante da pintura ou escultura. A valorização puramente estética não é encontrada nos seus trabalhos. Os ready-mades não apelam os nossos sentidos, eles aguçam nossa imaginação, nossa identificação, nossa interpretação da obra. Exige uma relação incomum, diferenciando-se das demais artes visuais vigentes até então.

Para ele a arte só era possível assim, fruto de pensar. Sua materialização seria a parte menos importante. Provou ainda, que a arte não é algo pomposo nem místico, mas acessível, passível de ser realizado por qualquer pessoa e não apenas por “escolhidos” ou “tocados pela genialidade”. Duchamp sem transformar nada, fez com tudo pudesse ser arte. Entretanto, o fato de tudo poder ser arte não implica que qualquer coisa seja arte.

Ao escandalizar o valor da arte contrapondo os elementos considerados sagrados e profanos, ele mostrou de maneira precisa que a arte era mais que estética, mais que a simples reprodução, era uma forma de expressão livre. Tanto “A Fonte” quanto os outros ready-mades foram formas de defesa contra toda a particularidade fixa que o conceito de arte estava agregado.

O próprio título pode sugerir conotações. “A Fonte” como nome dado a um mictório, além de ser sarcástico, como era típico do artista, trazia diversas possibilidades de interpretações. “A Fonte” urinava na arte retiniana (termo usado pelo artista para designar pejorativamente quadros apenas concebido para apreciação estética), clássica e tradicional:

“Não precisa ser muito conceitual para que eu goste. O que não gosto é do completamente não-conceitual, o puramente retiniano me irrita” explicou Marcel.

O quadro além de criticar a arte vigente, foi um modo de estimular a fertilização da arte contemporânea. “A Fonte” pode significar o nascimento ou origem do nada, da subversão, da regeneração, e até da confusão e caos. O conceito de “low art” e “high art” foram rompidos, este podendo evoluir até aquele, ou vice-e-versa. Essas concepções não são mais delimitadas, os ready-mades de Duchamp quebraram os paradigmas da arte tradicional, inaugurando um novo modo de ver a criação artística. “A Fonte” não é só um urinol, mas um urinol acionado na nossa mente como uma obra de arte provocante, diferente de tudo que já tinha sido feito.

Ao posicionar o mictório sobre a parte plana, Duchamp reproduziu a imagem da dessacralização da arte, provando que a arte não é só o belo. O objeto de cabeça para baixo sugere uma fonte que jorra água para cima, reciclando os resto fisiológicos do homem. O local no qual originalmente receberia os dejetos humanos, se transformou em símbolo de fertilidade, na fonte da vida: a água. Poderia, ainda, ir até mais longe… trazendo a idéia de que o mais puro dos homens seria sua própria impureza.

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