De Verdade: Uma história, quatro versões

Em “De Verdade”, Sándor Márai cria uma narrativa envolvente que te faz um leitor assíduo e passional. Sim, passional. O sofrimento, a dor e angústia desse desenlace vão se apresentando de maneira tão intensa que é impossível não tomar partido e se se deixar envolver àquele relato cheio de sentimentos e ressentimentos. Sofrer junto, se entregar com tudo até chegar a versão do outro. E do outro. A cada narrador, o conflito presente em cada detalhe vai tomando forma e o leitor vai ganhando discernimento para ponderar as emoções, os pontos de vista, o calor das emoções e as expectativas.

Normalmente, imaginamos situações, criamos cenas e triunfos que provavelmente só existirão dentro de nós. O fato de muitas vezes projetarmos nossas expectativas no encontro com o outro, acabamos nos levando à frustração. Queremos viver “de verdade”. Queremos ser os melhores, ter muitos amigos, muitas conquistas, muito sucesso, muitas aquisições, muito dinheiro… E pouco paramos  para refletir o que é, de fato, o “de verdade” sob o nosso ponto de vista. Se começarmos a olhar de perto, vamos ver que as coisas que nos fazem bem dependem de gestos bem simples…

Podemos fazer um paralelo com o filme “O Gênio Indomável” (Good Will Hunting, 1997), no qual Robin Williams interpreta com perfeição uma das cenas mais lindas e singelas do cinema. No papel de terapeuta, com a delicadeza de um personagem que sofre a ausência mas com a maturidade dos que já viveram muito, expõe que a beleza das relações está na idiossincrasias… Muitas vezes confundida com a imperfeição da vida a dois, as idiossincrasias são as coisas boas, são coisas íntimas que nos permitimos dividir com esse outro alguém, a concessão que damos para fazerem parte do nosso mundo particular.

Ao contrário da maioria dos filmes, que projetam no outro o mundo perfeito segundo um estereótipo inatingível. E por isso, o homem “de verdade”, a casa “de verdade”, a vida “de verdade” acaba virando uma vaidade, que fica distante do mundo real. E é com a categoria dos grandes mestres que o escritor húngaro vai desenrolando a narrativa, convidando o leitor para uma grande viagem para dentro de nós mesmos.

Nos mostra que desde pequenos somos submetidos a milhares de informações e padrões, nos é passado o que é certo e errado, aceito ou descartado. Nas escolas são ensinadas diversas disciplinas, mas pouco é dito a respeito da importância das questões subjetivas como a reflexão e o auto-conhecimento. Vivemos enlouquecidos de um lado para o outro, tarefa após tarefa, tentando dar conta de fazermos tudo que nos propomos com o nosso tempo e mesmo assim nos encontramos sem tempo. O ponto aqui é, será realmente que queremos ter tempo?

“As pessoas esperam, se atropelam, se refugiam nas relações humanas, e nessas tentativas de fuga não se fazem acompanhar de paixão verdadeira nem de entrega, refugiam-se em ocupações, em tarefas artificiais, trabalham muito, viajam segundo planos, levam a vida social intensa compram mulheres com quem não têm nenhuma ligação, ou começam a colecionar leques, pedras preciosas…”

O aspiracional e o desconhecido são muito sedutores e capazes de nos atrair, mas, “de verdade”, Sándor nos diz com clareza e sem rodeios, somos “apenas pessoas”. Precisamos nos ver como tal, sem depositar todas as fichas da nossa felicidade nas outras pessoas, pois “nenhuma delas tem o que do outro esperamos ou desejamos”.

A paixão pela literatura e compromisso que é vivido por um dos personagens nesse sentido, é um reflexo do próprio autor com a sua criação, especialmente essa, que demorou quatro décadas de minucioso trabalho de escolhas de palavras e composições quase plásticas para ficar completa. “De verdade” é uma obra prima que deve ser lida e digerida aos poucos. É um livro que é preciso ir saboreando cada frase, pois a intensidade de sensações é tão incrível que seria desperdício não poder se deleitar com toda a robustez que a sabedoria de Sándor nos oferece.

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Mais informações:

DE VERDADE, Sándor Marai.

De-verdade-Sandor-Marai

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3 comentários sobre “De Verdade: Uma história, quatro versões

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