Gilbertos: a favor dos bons encontros

“A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica.
A contribuição milionária de todos os erros.
Como falamos. Como somos”.

Manifesto Pau Brasil, Oswald de Andrade
(Correio da Manhã, 18 de março de 1924).

As imperfeições e incongruências inerentes da dinâmica em que se construiu o povo brasileiro fizeram com que nos tornássemos malandros cordiais. Se fizermos uma análise sob uma ótica estritamente positiva, poderemos ver uma transformação estética rica e diversa, que convive e sobrevive para (re)afirmar nossa identidade tupiniquim.

A informalidade da linguagem coloquial traz novo significado às palavras e, que dificilmente, seria replicada com tamanha objetividade se explicados de forma erudita. E são esses puxadinhos da língua que vão dando movimento e propiciando o surgimento da criatividade em diversos âmbitos da cultura como na literatura, na arte, na música… No samba!

E nada melhor que um samba para provar que basta o encontro entre um batuque e o violão, uma melodia de João Gilberto e voz de Gilberto Gil, para que em um movimento quase involuntário, as pessoas já não consigam se conter…

Há quem não goste de samba, não dá valor, não sabe compreender
O samba quente, harmonioso e buliçoso
Mexe com a gente e dá vontade de viver
A minoria diz que não gosta mas gosta
E sofre muito quando vê alguém sambar
Faz força, se domina, finge não estar
Tomadinho pelo samba, louco para sambar”

Banquinho, violão, e muito mais… Denominou-se “Máquina de ritmos” o tom de modernidade na releitura contemporânea das letras de autores como Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Caetano Veloso, que fizeram sucesso na voz de João Gilberto. Ganham ineditismo através de lixas em atrito e facas ensaiando movimentos rápidos sobre prato de porcelana em tom intimista. A poesia cândida das letras da Bossa Nova parece uma celebração ao samba na voz aveludada, mas de contrastes agudos típicos de Gil. A banda responsável pelos experimentos do projeto é composta por seu filho Bem Gil (violão, guitarra, flauta, percussão e MPC), Domenico Lancellotti (bateria, percussão e MPC) e Mestrinho (sanfona, percussão e MPC).

O cenário de Gilbertos Samba é minimalista e de luz suave, composto por materiais reciclados dá a conotação de transformação e recriação do samba. As facetas da releitura são provenientes da admiração profunda de Gil pelo músico João Gilberto e a forma com que ele se expressa no palco aproxima o público de maneira cativante e envolvente, provocando lágrimas… Sons e vozes surgem da platéia aparentemente dissonantes mas que, no todo, somam e adicionam beleza ao famoso e insubstituível “Desafinado”.

“Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm o ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu”

O destaque do álbum, por fim, vai para a música instrumental “Abraço”, de Luiz Bonfá. Ela ganhou letra de Gilberto Gil em um ensaio-quase-batismo no qual após muito ensaiar, o cantor ainda encontrava dificuldades na execução perfeita no violão e, de maneira praticamente inesperada, deu a luz à letra da canção… e partir desse momento, o conjunto fluiu. Gil abraça Bonfá, que abraça João.“Aquele Abraço” que abraça Gil, que abraça o Rio de Janeiro, que abraça o Brasil.

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