uma moldura clara e simples

Primeiro ato: pano de fundo com uma moldura branca e tela negra. Simetria. Moldura, limite, separação, escolha. Uma moldura clara e simples?

Segundo ato: cores e formas. Preto e branco. Assimetria. Formas que orientam e desorientam.

O mais novo espetáculo da Companhia de Dança Deborah Colker, “Belle”, é livremente inspirado no romance “Belle de Jour” do francês Joseph Kessel (1928), que ficou ainda mais conhecido através da adaptação de Luis Buñel para o cinema em 1967. Pela segunda vez na trajetória do grupo, como foi feito com o espetáculo “Tatyana”, o balé leva aos palcos uma história completa com início, meio e fim.

A narrativa nada convencional de Deborah apresenta a vida de Belle, a esposa de um profissional de sucesso que não consegue ter suas expectativas sexuais atendidas no casamento infeliz, por isso, resolve visitar um bordel. Em cena, a protagonista é representada por duas balarias com papéis bem definidos: uma representa a ‘razão’ enquanto a outra vive o ‘instinto’ em seu estado pleno – cada uma com a força necessária do(s) seu(s) ato(s). Seu personagem traz a complexidade de sentimentos conturbados daqueles que nunca estão satisfeitos, porque apesar de tudo sempre falta algo…

E, ainda, para compor a narrativa, a trilha utiliza o recurso agregador de músicas diversificadas a fim de ilustrar a transformação desde a rotina comedida de aparências até o desequilíbrio grave e pesado que pode vir da liberdade. Os primeiros movimentos são narrados por melodias que remetem às caixinhas de música até Velvet Underground no desenrolar da história.

Os figurinos ilustram com precisão o divisor d’águas do espetáculo: os tons pastéis responsáveis pelo recorte racional do desejo inicial em contraste aos jogos de luz repletos de erotismo da segunda parte. E, aqui vale comentar sobre o conceito que o erotismo traz em si nessa representação; que não é pornografia nem o exclusivamente carnal ou superficial, mas é algo que vai além, tem um quê de subentendido.

A simetria da primeira parte é ilusória, pois ela mascara através da aparente estabilidade e ordem um mundo que, no fundo, é pautado pela ausência e solidão. Uma moldura clara e simples pode dar a impressão de clareza e ordem apenas, mas pode ser também um limite definitivo entre o que está dentro e o que está fora, representando as nossas escolhas mais pessoais e precisas, por isso, mais profundas. Por conseguinte, o segundo ato revela o ser humano sob um ponto de vista mais visceral, sujeito a visões e delírios de um submundo e, por isso, mais espontâneo e genuíno, mas não necessariamente melhor.

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Mais informações:

BELLE

http://www.ciadeborahcolker.com.br/

Criação e Direção: Deborah Colker
Coreografia: Deborah Colker, Jacqueine Motta e Bailarinos
Cenografia e Direção de Arte: Gringo Cardia
Direção Musical: Berna Ceppas
Figurino: Samuel Cirnansck
Desenho de luz: Jorginho de Carvalho 

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