um mais um pode não ser dois

Caso você não tenha visto “Incêndios”, é fortemente recomendado que não leia esse texto e veja a peça antes.

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“Tudo que se procura, será descoberto; e aquilo que descuramos, nos escapa”.
Édipo Rei, Sófocles

O rei de Tebas, Laios é amaldiçoado de maneira que o seu primeiro filho se tornaria um assassino e casaria com a própria mãe, a rainha Jocasta. Sabendo disso, o Rei manda matar a criança, mas o camponês encarregado pelo serviço resolve desobedecer às ordens, ela sobrevive e é levada para outra cidade. Essa criança chama-se Édipo. Ele cresce e, quando adulto, descobre a maldição sobre si e foge… Entretanto, apesar de tentar fugir do seu próprio destino, chega exatamente na cidade onde sua família o espera e sua maldição é consumada.

A tragédia grega de Sófocles renasce em uma brilhante releitura do escritor libanês Wadji Mouawad na arrebatadora peça Incêndios. A história protagonizada por Marieta Severo, no papel da árabe Nawal Maruan, fala sobre a beleza de estar junto em contraponto à dor da ausência. O recorte irregular da narrativa cria o clima de suspense e vai costurando personagens complexos, que vão transpondo tempo e espaço para contar uma história que passa por gerações:

“Após um longo silêncio de cinco anos, a árabe Nawal Maruan falece no Canadá, deixando aos cuidados de seu tabelião e amigo, 3 cartas para os filhos gêmeos, contendo seus últimos desejos. Eles devem sair em busca de um irmão do qual ignoravam a existência e de um pai que acreditavam estar morto. Jeanne e Simon se engajam nesta odisseia sem ter a dimensão do quão dolorosa será. Eles remontam o caminho de uma tragédia familiar e histórica, descobrindo sua própria história e filiação num país devastado pela guerra. O passado da mãe se mistura ao presente dos filhos gêmeos. A herança da família atravessa as épocas como as fronteiras. Com um final surpreendente e impactante a história da família Maruan é revelada”*1.

“Há verdades que não podem ser reveladas. Precisam ser descobertas” diz a personagem de Marieta Severo pontuando o tema central da peça. As grandes verdades precisam ser descobertas, pois somente dessa forma são recebidas com a magnitude e importância das quais precisam. Incêndios não é uma peça que fala de guerra, mas sobre o resgate de um silêncio… Trata-se de uma história e muitos destinos. É uma busca desesperada pela verdade. A verdade sobre si, sobre a origem, sobre o rompimento, sobre o amor. E a necessidade dessa busca surge de uma deficiência de compaixão em um ambiente hostil e brutal. E mais, sobre a consciência da responsabilidade de estar são em uma realidade tão desumana e catastrófica.

Silêncio é ausência completa de ruídos. No caso de Incêndios, o excesso de ruídos em diferentes níveis e esferas da vida de Nawal a fizeram se abster voluntariamente de falar, pois foi a forma mais genuína que encontrou como resposta a uma verdade tão cruel. Afinal, o título não é gratuito. Além do significado óbvio do “ato ou efeito de incendiar”, também envolve “calamidade” que por si só já descreve um “desastre em grande escala”. No início da narrativa, momento em que se ignora a trajetória da protagonista esse significado ainda não está claro. Jeanne e Simon recebem as cartas com últimos desejos de Nawal e a reação é de repulsa e incompreensão, a missão é interpretada por eles como um capricho póstumo sem importância… Muitas vezes, as coisas mais óbvias podem ser (e provavelmente são) mais complexas em sua subjetividade não aparente: um mais um pode não ser dois.

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Mais informações:

INCÊNDIOS

*1 https://www.facebook.com/IncendiosAPeca
http://www.faap.br/teatro/emcartaz.html

Direção: Aderbal Freire Filho
Elenco: Marieta Severo, Felipe de Carolis, Keli Freitas, Kelzy Ecard, Márcio Vito, Isaac Bernat, Flávio Tolezani e Fabianna de Mello e Souza.

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