Como se faz para viver uma vida cheia de nada?

“As pessoas podem mudar tudo. Mas há uma coisa que não podem mudar… Podem mudar de cara, de casa, de família, de namorado, de religião, de Deus. Mas tem uma coisa que não se pode mudar. Não se pode trocar de paixão”. O filme argentino “O Segredo dos Seus Olhos” mostra a devoção que todos nós temos àquilo que nos move.

Falar sobre paixões é um assunto sério. É o que de mais íntimo temos e compartilhamos com o mundo. Podemos lutar contra isso, podemos não aceitar, podemos nos afastar… Mas como viver sem elas? Somos reconhecidos por aquilo que amamos. Em uma das cenas iniciais do filme o personagem de Ricardo Darín, Benjamin, escreve ainda dormindo a palavra “TEMO” em um bloco ao lado da sua cama. E essa cena, em que ele se encontra ainda sonolento, talvez seja um dos momentos de maior lucidez durante os últimos 25 anos de sua vida.

A partir do momento que ele reconhece o medo que o impede de seguir o seu destino, ele começa a se libertar desse sentimento que o aprisiona. Ele qualifica esse medo como “uma distração”. O fato de estarmos sempre com pressa e “distraídos” nos camufla às tarefas do cotidiano, nos dando o aval para sermos negligentes com nós mesmos. E isso nos faz ter uma vida repleta de “nada”, isto é, uma vida na qual nos auto-sabotamos.

Não é fácil se livrar das amarras que nos impedem de vivermos nossas paixões. E o filme mostra que foi preciso uma segunda história de amor para que Benjamin pudesse lutar pela sua. O amor entre Morales (Pablo Rago) e Liliana (Carla Quevedo) acaba em um terrível homicídio, precedido por um estupro. Benjamin é o oficial de justiça encarregado por investigar o caso e acaba descobrindo a si mesmo. Aprende com Morales o que é o olhar enternecido de “puro amor” e vê sua vida por um outro ângulo.

Mais do que a paixão, “O Segredo dos Seus Olhos” traz a construção de um olhar ao longo do tempo. O olhar é pista para o desfecho das duas histórias, a de Morales e a de Benjamin. Os olhares descarados de um certo rapaz para Liliana nas fotos do “Caso Morales”. Os olhares intensos trocados entre Benjamin e Irene. “Os olhos falam” e através deles é que se entregam.

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3 comentários sobre “Como se faz para viver uma vida cheia de nada?

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