Encontro marcado com sangue

O homem quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo, é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma, Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.

(De uma carta de Hélio Pelegrino, Prefácio do Livro O Encontro Marcado)

A busca de si nada mais é que um encontro marcado com nós mesmos, que se dá por consequência do contato com o outro. Por isso, Hélio Pelegrino diz que as mãos vazias é o começo da sabedoria, pois o domínio do outro é uma arapuca a qual nos presenteamos. E ainda, que fique claro, só seremos capazes de nos conhecer plenamente quando estivermos nus e só isso bastar.

Desencanto, melancolia e tédio são palavras que poderiam resumir a vida de Eduardo Marciano, protagonista de Fernando Sabino, em O Encontro Marcado. Uma narrativa que nos convida a ser cúmplices de sua vida e nos conduz aos meandros da intimidade de uma história que amadurece desorientada. A narrativa traz a força e a delicadeza de ser subjetiva sem ser piegas, justamente porque revela que a luta pela liberdade e descoberta de si são na verdade o sonho comum de uma geração frustrada – daquela que viveu por muitos ideais quebrados…

Em Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera, encontramos a mesma simplicidade sofisticada e despretenciosa que cativa na obra de Sabino. A história que corre através do minucioso passar de gerações, de desencontros, de sofrimentos e ilusões… O peso que chega com a idade: razão que advém da maturidade de uns anos a mais. Os dois buscam a mesma coisa. Os caminhos são diferentes. A simplicidade para eles é possivelmente a mesma coisa sob diferentes ópticas. Uma família, um amor, um sonho, isto é, a busca incessante pela felicidade – seja ela uma procura consciente ou não.

O personagem de Fernando, mais romântico e ambicioso. O seu problema é que vive em busca de uma história que vive no futuro e que não é construída no presente. O de Daniel, menos deslumbrado e mais pragmático. Segue seu caminho com uma clareza calma de quem sabe aonde quer chegar e, ao mesmo tempo, repleta de surpresas – que constroem e destroem o personagem em uma árdua tarefa se ser quem se é. No fim das contas, estamos sempre correndo atrás de nós mesmos… Seja através do outro, seja pela solidão (ou companhia) de nós mesmos. E nesta tarefa, nós leitores nos tornarmos cúmplices e coadjuvantes destas envolventes histórias e, ao virar a última página, ficamos órfãos num vazio desconcertante.

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Mais informações:

O ENCONTRO MARCADO, Fernando Sabino.

O-encontro-marcado

BARBA ENSOPADA DE SANGUE, Daniel Galera.

barba

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