Quanto dos nossos esforços são oferendas ao nada?

Traição e tradição. Corpo e alma. Moralidade e imoralidade. Compreender um conceito pelo seu contrário é fotografar a alma. É se permitir ver a natureza transgressora em um corpo vestido pela moral. O monólogo de Clarice Niskier, A Alma Imoral, nos mostra que os opostos carregam uma tensão, que é inerente e necessária para existência deles. E é ela que nos absolve do pesadelo da acomodação.

Por isso nada pode ser mais terrível do que aquele que não usa todo o potencial de sua vida e se limita, muitas vezes, ao que é correto mas que não é o bom. Essa atitude não é uma traição a si somente, mas a todos os demais. Ao deixar de explorar sua essência, aquilo de mais genuíno que faz com que você seja você, é privado ao próximo um mundo de possibilidades e contribuições que muitas vezes não são desvendadas pelo medo da transgressão à tradição.

Não é despropositado, portanto, que Clarice jogue tanto com as palavras e chegue à conclusão que todo homem é um potencial traidor. Afinal, fugir da alma é abrir mão de viver aquilo que somos. E o arrependimento mais cruel que alguém pode ter é fugir de sua alma e um dia se perceber vivendo a solidão desoladora da ausência de si mesmo.

O apego fere a alma assim como a traição fere o corpo. A peça inspirada no texto de Nilton Bonder nos revela que os contratos honestos entre as pessoas só existem se forem constantemente revalidados. Sendo assim, conclui que melhor o traidor ao hipócrita, que não corrompe o corpo mas dilacera a alma. O desconforto causado quando o espaço em que vivemos se torna estreito faz parte do pedágio que paga para galgar terrenos mais férteis. Pode ser um processo avassalador, mas que é necessário para que continuemos seguindo em frente até que a tormenta cesse e a mágica aconteça.

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Mais informações:

Peça em cartaz até 28 de agosto de 2015 no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, SP.
http://www.teatroevaherz.com.br/teatro/?l=resenha&npeca=189

Livro que deu origem à peça:
http://www.livrariacultura.com.br/p/a-alma-imoral-170060

livro

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Um comentário sobre “Quanto dos nossos esforços são oferendas ao nada?

  1. Adorei a descrição e interpretação da peça. Falou mto bem! Como ela diz o objetivo de crescermos, multiplicarmos e evoluirmos vem através desse atrito da razão com emoção..

    Tocante td! Bom pra refletirmos! Beijos

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