Sejamos todos feministas já!

“A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da cultura, então temos que mudar nossa cultura”.
Chimamanda Adichie

Dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, tem o papel de relembrar a luta pela equidade de gênero. Foi nesse mesmo dia, na Rússia, em 1917, que cerca de 90 mil mulheres se uniram para reivindicar melhores condições de trabalho (redução da jornada de 14 horas de trabalho) e salários mais justos (na época, a remuneração delas era 1/3 em relação aos homens com o mesmo escopo de trabalho). Ainda que estejamos avançando para uma realidade mais igualitária entre homens e mulheres nesses últimos 100 anos, ainda há muito a se construir. É preciso falar sobre o assunto e desmistificar o que é realmente este tal movimento feminista.

Em tempos bárbaros em que a estatística nos violenta com a informação de que 1 a cada 3 mulheres será estuprada, violentada ou espancada em algum momento da sua vida(*1), parece utópico vislumbrar cenários promissores. Por isso, é necessário esclarecer que o movimento feminista nada mais é do que trazer esse assunto a tona, que não é nada radical ou de outro mundo. Não é sensato que as pessoas cultivem o respeito pela igualdade de oportunidades tanto para homens quanto mulheres em questões financeiras, sociais e profissionais?

É preciso desconstruir os estereótipos nocivos de gênero. Em estudo divulgado pelo IBGE(*2) o rendimento das mulheres constitui 74% do que os homens recebem mensalmente. A desigualdade é ainda maior ao levar em consideração a raça delas: a mulher negra ganha, em média, apenas 41% do salário do homem branco. Quanto mais alto o cargo e a escolaridade, maior a desigualdade de gênero. As estatísticas mostram, no entanto, que, na média da população, a escolaridade feminina é maior. A mulher tem oito anos de estudo, e o homem, 7,6 anos…

Recentemente indicado ao Oscar em três categorias, o longa metragem “Estrelas além do tempo” resgata a história de mulheres negras brilhantes que precisaram brigar muito por seu espaço em uma cultura machista e racista nos anos 1950, nos Estados Unidos. As protagonistas são matemáticas afro-americanas que trabalhavam na NASA, participando da missão espacial que resultou na chegada do homem à Lua. O trabalho dessas moças foi tão superlativo que ficou impossível de ser ignorado. São pessoas como elas que lutaram para que as coisas mudassem e, que hoje, sejam percebidas como ´normais´.

É curioso que mesmo com exemplos inspiradores como esses, ainda esbarremos com argumentos machistas sobre do papel do protagonismo do homem na história da humanidade. Acontece que o mundo mudou e a cultura entre gêneros não evoluiu na mesma velocidade. Para uma pessoa ser capaz de liderar não é preciso ser a fisicamente mais forte, os tempos são outros e as máquinas atendem a essa necessidade. Inteligência, sensibilidade e capacidade de interpessoal são algumas características, por exemplo, muito mais poderosas no mundo contemporâneo e cada vez mais imprescindíveis para se destacar tanto no mercado de trabalho quanto na vida social. Ainda assim ainda temos apenas 37% das mulheres nos cargos de gerência e direção no Brasil.

Chimamanda Adichie em seu célebre discurso “Sejamos todos feministas” comenta que “se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal”. Não precisamos ir muito longe na história para constatar isso como um fato: Joseph Goebbels, comandante da máquina de propaganda nazista, também dizia que uma história contada repetidas vezes virava verdade. Para se manter lúcido e isento dessa poderosa comunicação sexista precisamos estar atentos e fazermos a nossa parte. Sim, as coisas só mudam se a gente mudar.

Algo em torno de 2 milhões de meninas entre 5 e 15 anos são “traficadas”, vendidas ou coagidas a se prostituir(*2). Os dados chocam? Precisamos falar de sexualidade feminina e isso não pode ser mais um tabu. O patrimônio simbólico da cultura ocidental se baseou em uma lógica masculina de compreensão do feminino, imaginário que ainda prende pessoas de ambos os sexos. O aval imposto pela tradição cristã que tanto dividiu de um lado o amor sexual e de outro o sentimento casto, contribuiu para criação de esteriótipos radicalmente opostos. A satisfação sexual e o livre exercício de sua sexualidade cabe a mulher decidir. Não é uma roupa justa, curta ou a cor do seu batom que vão definir quem elas são e quais os seus valores.

“O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos.” Somos também, nós mulheres, que cultivamos valores machistas sem se dar conta do quanto estão enraizados em nossa cultura. Nós como pais e mães somos responsáveis pela educação de meninos e meninas das próximas gerações e não podemos mais prestar esse desserviço à criação das nossas crianças: meninas vivem atormentadas com o peso desproporcional que damos ao pudor que devem ter no comportamento social “feche as pernas, se cubra…” . Orientações como essas fazem parecer que apenas o fato de terem nascido mulher já deveria ser motivo para se considerarem culpadas por algo e crescem ignorando que elas tem direito ao prazer sexual assim como os homens, ensinando-as que “fingir deve ser uma habilidade feminina de uma moça bem comportada.

O desejo de mudança precisa estar dentro de cada um de nós. Chega de omitir ou se calar, precisamos de atitude, dizer NÃO para todas as formas de violência contra a mulher. Somos os personagens do mundo atual e cabe a nós escolher o papel de protagonistas ou de figurantes neste cenário. Afinal, não basta nascer mulher, mas para nos tornarmos mulheres e homens que entendam e lutem por um mundo mais justo, temos que brigar diariamente e incessantemente para que o papel da mulher seja o qual ela quiser.

*1 Unifem – Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher.
*2 Estatísticas de gênero: uma análise dos resultados do censo demográfico 2010.

__________

Mais informações:

SEJAMOS TODOS FEMINISTAS, Chimamanda Adichie. (e-book grátis!)
http://www.livrariacultura.com.br/p/sejamos-todos-feministas-84747116

capa chi

 

 

 

 

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Um comentário sobre “Sejamos todos feministas já!

  1. Texto maravilhoso e provocador! Sim, sejamos todas feministas, somente ao nos unirmos como parceiras da mesma causa, veremos maiores avanços. Infelizmente devido à cultura machista que “nos castra”, ainda nos deparamos com mulheres que se veem como inimigas e isso é lamentável, levando com que fortaleçamos os comentários machistas. Parabéns Fernanda, excelente texto! Espero que retome o blog de vez! 👊🏾

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