A nostalgia por tempos que não vivi

“Nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe”.
José Saramago

Sempre tive admiração pelos mais velhos. Os cabelos grisalhos e as rugas marcadas me chamam atenção e me fazem imaginar o quanto de historietas e conhecimento estão ocultos por trás dos sinais expostos pela velhice. Não sei a origem deste sentimento… talvez por ter tido uma grande adoração pelo meu avô, ou porque nos anos 1980 o mundo não era tão fragmentado e esse sentimento de não-pertencimento que vivemos hoje, ignora uma fonte única da verdade das coisas. Mesmo que o ‘certo’ ou ‘errado’ sejam relativos, a sabedoria transmitida de geração para geração sempre trazia a importância de algo raro que lhe era entregue e que deveria ser usado com parcimônia e zelo. Ou, ainda, pode ser um misto de tudo isso e, confesso, o meu gosto pela história da humanidade ascende uma certa nostalgia por tempos que não vivi.

De todo modo, o que importa é que cada ano que passa, mais sinto um clarear sobre minhas ideias e menos observo a rigidez em meu peito dando espaço à reflexão, à empatia, à redenção. E, não só isso, também descubro que ser muito duro nas ideias faz com que julguemos mais e amemos menos. Não é à toa, que ´A máquina de fazer espanhóis’ me conquistou desde as primeiras linhas… A vida do senhor Silva, protagonista da trama, vai sendo revelada aos poucos, abordando a tragédia da perda de pessoas queridas e confessando sua subjetividade doída que vai aflorando junto a lentidão dos passos.

Silva é levado para um asilo após a morte de sua esposa, Laura, tendo de lidar com um misto de sentimentos complexos e dilacerantes que envolve amor, fé, vida e morte. Constata que o pesar da dor vem do fato que ‘o amor é uma estupidez intermitente mas universal e ninguém está a salvo’. O escritor emprega ao personagem um olhar tão singular sobre as coisas da vida que consegue transmitir ao leitor o sentimento visceral que é ser um romântico em tempos líquidos.

Valter Hugo Mãe apresenta o conceito de ‘tempo não linear’ ao longo da narrativa, no qual percebe que a memória cria ciclos de lembranças. Isto é, por mais que o tempo passe e as emoções pungentes sejam abafadas, sempre que for preciso refazer um ciclo em nossas vidas a dor desabrochará novamente frente à lembrança de um ciclo antigo que retoma a nitidez de um detalhe e resgata a dor adormecida. É preciso doses de coragem para acalmar as turbulências sem controle que insistem em nos cambalear as estruturas.

Perder a lucidez é uma forma de abrandar o juízo para que todo o processo seja menos doloroso frente à deteorização do corpo. Desapegar do seu legado e aceitar o fim é um exercício difícil pois implica em abrir mão de quem se é. ‘A inconsistência [da memória] apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta, é bem visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão frente a morte, não entremos em pânico’. Por fim, o que sobram são memórias para aqueles que continuam a caminhar pelo silêncio seco da perda, lapidar as lições aprendidas e buscar sentido para recomeçar…

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Mais informações:

Créditos para a imagem em destaque: http://www.mr-esgar.com/

Livro: A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS, Valter Hugo Mãe.
http://www.livrariacultura.com.br/p/a-maquina-de-fazer-espanhois-46335799

capa

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Um comentário sobre “A nostalgia por tempos que não vivi

  1. Maravilhoso o texto! Difícil pensar que um dia podemos ser o senhor Silva. Uma reflexão inevitável hoje, de que um dia ficaremos velhos. Já quero ler o livro!

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