O que a vida quer da gente é coragem

“O correr da vida embrulha tudo,
a vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”.
O Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa 

O Século de Ouro na Holanda revelou gênios da arte como Rembrandt e Vermeer. Discípulo de Rembrandt, Carel Fabritius entrou para a história com uma obra óleo sobre painel de pequenas proporções, o Pintassilgo. O quadro do pássaro amarelo ganhou notoriedade pelos críticos e contribuiu para sua reputação de artista experimental cujo legado foi algumas raras mas preciosas obras. O quadro citado é o centro da narrativa que envolve o amor entre mãe e filho: a paixão pelo Pintassilgo que os mantém conectados.  Com a morte da mãe, o menino surrupia a tela e desencadeia numa sucessão de fatos que o direcionam ao submundo da arte.

O certo e o errado são relativos. O recorte que se propõe aqui é a abordagem de um valor maior e intangível que precisamos lidar no dia a dia e que não está em uma definição moral única que guie nossas ações cotidianas. Temos religiões, crenças, ideais que tentam aterrissar esses conceitos, mas nenhuma o fez de maneira única e universal. Neste caso, portanto, nos atentemos ao bem e ao mal como conceitos maiores e inatos dos seres humanos. A partir do momento que você causa danos a algo ou a alguém de maneira consciente, se sabe que aquilo não é correto ou ético. Simplesmente algo dentro de nós sinaliza internamente e faz com que percebamos o predicado daquele sentimento.

Tem quem encare esses conceitos de maneira rígida e tem aqueles que os veem de forma mais flexível. O objetivo aqui não é julgar a visão de mundo de cada um dos opostos, mas entender como cada uma delas proporciona uma vida mais harmoniosa e feliz (ou não). Como vemos e percebemos o mundo é o que faz com que saiamos do universo literal e nos entreguemos ao extraordinário do figurado. A habilidade com que consigamos orquestrar os dramas sinuosos das relações humanas irá elucidar nossos monstros e nossas virtudes individuais nos revelando como lidar com eles.

Donna Tartt consegue criar personagens complexos e dramáticos,  como o protagonista Theo, que se vê sozinho no mundo em meio a um turbilhão de emoções. Aos treze anos, ele sofre a perda da mãe num explosão em um museu de Nova York. A partir desse momento, o menino vive atormentado e se apega a última lembrança que tem ao lado dela – a pequena tela com tons amarelados. A prosa te envolve do início ao fim, vai costurando a realidade e sua percepção sobre ela com doses de requintadas sensibilidade.

A autora escolhe as palavras com maestria para tangibilizar o poder da arte como algo místico e sublime:

– Tenho pensado muito sobre aquelas imagens que te afetam no fundo da alma e fazem seu coração se desabrochar como uma flor, imagens que se abrem para uma beleza muito, muito maior, que você pode passar a vida toda procurando e nunca encontrar.

Uma obra de arte é atemporal e inexorável, pois assim que terminada pelo artista passa a pertencer a eternidade e guarda para si a aura de quem a amou. Não precisa ser erudito para ter relação com arte, basta se deter por uns instantes frente a uma obra e se deixar seduzir pelas emoções que ela lhe desperta. Ouso acrescentar que a transformação genuína que uma obra é capaz de produzir ao seu observador é o mais importante na relação pintura-observador. Esse simbolismo passa a ter um valor maior que possivelmente irá ressignificar conceitos e abrir novas possibilidades no entendimento da vida.

É preciso aceitar que não há uma explicação racional para nossas paixões. Existe o mundo literal no qual na tela é representado um pássaro amarelo com camadas espessas de tinha, marcas de pinceladas fortes com variações ocre que foi feita por um artista do século XVII com base num contexto e habilidades que lhe constituíam. Racionalmente podemos optar por entender a história e tudo o que aquela obra representou em termos políticos, sociais, econômicos e culturais naquela sociedade. E, evidentemente, tudo isso tem um enorme valor: novidades em termos técnicos, a evolução dos materiais e cores, a desconstrução do momento anterior e a rebeldia dos novos tempos.

O pequeno Pintassilgo é muito mais do que jogo de luz e sombras. São penas, códigos, símbolos, cheiros… que contam uma história – que talvez você não saiba- e tudo bem. O foco aqui é o sentido aristotélico de catarse; é contemplar, é sentir, é se render. Quais sentimentos que ele lhe provoca? Essa busca por racionalização obsessiva para justificarmos todas as coisas que sentimos nos consome as energias. Tartt ilustra isso em algumas passagens do livro, no qual o personagem vive angustiado tentando achar um rumo, mas que desamparado, acaba seguindo caminhos tortuosos, levando-o às drogas, excessos e instabilidade emocional. O intangível acaba sendo, assim como qualquer coisa que não entendemos, desprezado por Theo. E esse é o cerne da problemática aqui: na tentativa de compensar a dicotomia dos sentimentos, atribuímos à razão um falso poder de controle e segurança.

– Não há nenhuma verdade para além da ilusão porque entre a realidade de um lado, e ponto onde a mente toca a beleza ganha vida, onde as superfícies muito diferentes misturam e se confundem para suprir o que a vida não oferece; e esse é o espaço onde toda arte existe, e toda mágica e todo amor.

De fato, os dramas humanos são misturados e confusos. Às vezes, temos pensamentos mais nobres, às vezes simplesmente vulgares. Quem define o que é o certo e o errado?  Eles se apresentam com certa nebulosidade, fica difícil agir em meio à turbulência. O que nos direciona para atitudes acertadas ou não é aquela voz que vive dentro de nós e normalmente nos encontra quando deitamos a cabeça no travesseiro. Boris – o melhor amigo de Theo -, discorre nessas reflexões:

Para mim, essa linha [traçada entre o bem e o mal] muitas vezes é falsa. Os dois nunca estão desconectados. Um não pode existir sem o outro. Desde que eu esteja agindo por amor, sinto que estou fazendo o melhor.

No fim, o que importa é o quanto nos esforçamos para dar o melhor que podemos ser. Talvez a verdade seja que a lógica de tudo isso extrapola os limites que conseguimos compreender e isso nos impede de ver ou entender algumas questões maiores. Mas isso não deve nos limitar a uma vida vazia e vã, mas nos empurrar para continuar tentando vencer o medo que nos sufoca. Afinal, o que a vida quer da gente é coragem.

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Mais informações:

Livro: O PINTASSILGO, Donna Tartt.
http://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/romances/o-pintassilgo-42272389

pinta

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